A cultura castreja deriva o seu nome do termo castro, latim castrum, de onde deriva a moderna palavra castelo e chegamos por aí ao seu significado: fortaleza ou cidade fortificada. Pela sua natureza intrínseca, os locais de implementação destas comunidades humanas seriam nos locais mais elevados, nos cumes e cerros que permitiam uma melhor defesa. A delimitação geográfica da cultura castreja cinge-se ao noroeste da península Ibérica, Norte e Centro de Portugal e a província espanhola da Galiza. O horizonte temporal abrange desde o primeiro milénio a.C. até à completa romanização no séc. I d.C., plena Idade do Ferro, também designada pelos especialistas como Proto-história, aquele tempo onde, existindo já a linguagem escrita, haviam que ainda não tinham chegado a esse estágio.
De uma forma esquemática e simplificando, a Península Ibéria tem duas grandes áreas de influência: mediterrânea a oriente e sul até metade de Portugal, com contactos fenícios e gregos; a ocidente e norte com contactos do centro europeu, genericamente designado por celta. Neste pequeno trabalho vamos analisar especificamente a cultura que se desenvolveu nas regiões de Portugal chamadas Minho, Douro e Centro, ou seja entre o rio Minho e o rio Mondego, tendo como eixo central o rio Douro. Estas regiões têm características geográficas especificas, marcadamente um relevo acentuado, apesar de raras vezes exceder os 1000 metros de altitude, e a sua proximidade com o Atlântico permite-lhe ser região muito fértil em água e, portanto, em vegetação e recursos naturais. Estes atributos são partilhados com a actual Galiza por onde também se estende esta cultura e onde eminentes investigadores contribuíram para o seu estudo e divulgação.
Este transfundo celta abrange também a região mais oriental de Portugal, Trás-os-Montes, e aqui, e talvez pela geografia, nesta mesma época habitaram povos com traços culturais semelhantes, mas com especificidades diferentes daquelas que neste trabalho queremos referir. Esta outra região do norte de Portugal ficará para um próximo texto.

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As fontes para o estudo desta cultura são os autores gregos e latinos da época clássica, como Avieno, Estrabão, Pompónio Mela, etc., que nos deixaram algumas linhas passíveis de ajudarem a reconstruir o quadro histórico, mas sempre com uma visão própria sobre o estranho, o bárbaro. No século XIX o interesse pelo passado levou a uma explosão de investigadores que começaram a desenterrar e tornar visíveis as ruínas que se descobriam. Nesta época ficaram estabelecidas as linhas gerais: foi criada a terminologia e as primeiras questões e soluções marcaram o futuro desta arqueologia específica. Castro, cividade e citânia foram palavras que entraram no dicionário; a busca da origem dos lusitanos estava no auge. Até aos dias de hoje, imensos trabalhos têm contribuído para um conhecimento mais aprimorado dos pormenores e circunstâncias da vida destes povos que nos antecederam.
A POLIS
Na palavra castro é comum incluir todos os vestígios de construção humana efectuada em locais elevados, e assim os arqueólogos conseguem perto de um milhar destes locais em todo o Norte e Centro de Portugal. Esse termo, castro, engloba uma cidade capaz de albergar um largo número de habitantes até à simples fortificação defensiva. Assim, a palavra citânia de nebulosa etimologia refere-se com mais precisão à cultura que queremos tratar.
A primeira grande citânia a ser explorada foi a de Briteiros, Guimarães, pelo célebre arqueólogo e filantropo Francisco Martins Sarmento em 1875. A partir do topo do elevado morro, que domina os horizontes em redor, se derramam inúmeras habitações e construções organizadas por ruas estruturadas em bairros ou quarteirões. Uma característica identificativa desta cultura é este tipo de edificado habitacional onde estruturas redondas e outras rectangulares ainda hoje desafiam a imaginação dos estudiosos para descortinarem qual o seu uso efectivo. Qual a função de uma construção sem porta de entrada? Que uso teria o pequeno átrio na entrada das casas redondas?

Estas cidades ou citânias teriam autonomia política não existindo uma capital que imperasse sobre as outras. Uma certa rivalidade tribal deveria estimular os múltiplos grupos existentes.
A vida económica era naturalmente agro-pastoril. Uma base importante da alimentação era a bolota de carvalho, espécie abundante nesta região, com a qual produziam um tipo de pão e do qual já Estrabão tinha feito referência no mundo antigo. Modernamente e através de tecnologia, inventariou-se um leque variado de cereais que também eram usados na alimentação: trigo, milho miúdo, cevada. Supõe-se que a forma de moagem dos grãos seria muito individual pois foram encontrados inúmeros pequenos moinhos de uso pessoal em todas as citânias. Também foram encontradas sementes de favas e ervilhas, um alimento típico ainda nos dias de hoje. Cultivavam linho para tecelagem e Plínio afirma que era exportado para Itália. A recolha de frutos e a pastorícia, que teve grande intensidade, são também actividades económicas muito importantes não só na alimentação, mas também no vestuário e actividades artesanais onde a gordura animal era um ingrediente base. Vestígios de variado gado foram encontrados pelos arqueólogos, aliás, gado não diferente do actual que ainda persiste nestas regiões: gado ovino e caprino, porco, cavalo, bovídeos e galináceos.
São raros os instrumentos agrícolas que foram encontrados devido aos materiais perecíveis com que eram construídos. Parece, segundo os autores antigos, que a maioria dos trabalhos agrícolas era exercido pelas mulheres. Os homens dedicar-se-iam à caça, à defesa, às artes e ofícios com o granito, cerâmica, metais. A tecelagem seria tarefa feminina.
Em zonas de mar e rio os recursos piscatórios eram igualmente importante fonte de alimentação.
Os trabalhos de olaria foram muito importantes. Enorme quantidade de fragmentos de vasos, pratos, recipientes diversos e das mais diversas dimensões surgiram das escavações, infelizmente com poucos exemplares intactos. A cerâmica não era pintada mas decorada através de métodos de incisão e traço, com motivos típicos desta cultura castreja: pontos, círculos, linhas, sss, trísceles, cordas entrelaçadas, etc. A importância da cerâmica pode ser dada pelos vestígios de marcas ou sinais do oleiro ou da sua oficina: possivelmente estariam organizados em famílias ou corporações e identificavam as suas peças com o seu sinal próprio.

Trocas comerciais com outros povos de regiões distantes, especialmente Mediterrâneas, ficaram registadas pelos vestígios de cerâmicas encontradas.
O uso de metais foi recorrente. Estamos na Idade do Ferro e muitos utensílios com este metal foram produzidos: armas, ferramentas agrícolas e outros instrumentos vários de uso quotidiano. Usaram também bronze, especialmente em etapas mais remotas, e ouro para objectos de arte.
Os trabalhos em ouro são de grande preciosidade demonstrando a excelência artística destes artesãos. Este metal precioso era valorizado pelo que representava o seu simbolismo e não como moeda de troca, ou seja, não era uma valor material mas um símbolo distintivo dos nobres e guerreiros. Torques, virias e arrecadas são o expoente destes trabalhos.
Torques são os colares usados pelos chefes guerreiros bem representado nas estátuas em granito que referiremos mais à frente. Virias são as braceletes largas usadas nos braços e antebraços, algumas com excelso trabalho de gravura. Deste nome viria deriva o nome do famoso chefe dos Lusitanos Viriato, aquele que porta virias, sinal distintivo do guerreiro. Arrecadas é o nome dado a brincos usados nas orelhas com riquíssimo trabalho de filigrana cuja tradição ainda perdura nos tempos actuais.


Outros trabalhos artísticos importantes em metal são os carros votivos. Com vasta tradição por todo o continente europeu, a elaboração de esculturas em metal representando carros com fins religiosos aparece documentada com importantes achados arqueológicos. O primeiro foi o chamado carro de Vilela, a localidade onde foi encontrado, no distrito do Porto; representa uma procissão de ofertantes. O segundo achado importante foi no distrito de Viseu, castro de Baiões, S. Pedro do Sul e é um típico carro com recipiente tipo taça no topo para oferenda. Junto a este que se conseguiu reconstituir, foram encontrados fragmentos de outros carros.

Carro Votivo de Vilela
Carro de Baiões

Vestígios importantes da arte e religião são as estátuas em granito chamadas guerreiros lusitanos ou calaicos. Especialmente encontradas nas regiões de Entre Douro e Minho, são consideradas pelos especialistas como estátuas protectoras que se encontrariam na entrada das cidades. Provavelmente são representações do chefe guerreiro e não de qualquer divindade atendendo a que estes povos, segundo Estrabão, eram “ateus”, isto é, não tinham representação figurativa da divindade. A sua tipologia está bem definida: posição hierática, normalmente assentes numa base, alguns só com metade das pernas, com saiote curto, ostentando um escudo frontal e um punhal lateral; uns possuem torques no pescoço, outros portam virias nos braços e outros ostentam swásticas no cinturão atrás das costas; no saiote que vestem, alguns têm decorações com quadriláteros, ziguezagues e sss. Uma das estátuas de Lesenho ostenta uma acha de duplo gume no peito.


A arquitectura
No início referimos a estrutura urbana desta cultura, algo desordenada mas de onde se depreende uma certa ordem. A nível da arquitectura para uso quotidiano, as casas são muito simples, normalmente redondas em pedra granítica cobertas de colmo, mas às vezes têm algum elemento decorativo: as soleiras, ombreiras e padieiras de algumas portas são ornamentadas com elementos característicos utilizando a decoração geométrica típica da cultura castreja, em corda, espinha, círculos encadeados, trísceles, sinais cruciformes e serpentiformes. Mas há um tipo de construção que fascinou os arqueólogos e continua a deslumbrar nos dias de hoje quem contempla essas obras de arte: a Pedra Formosa.

O nome pedra formosa foi dado pela população de Briteiros, Guimarães. Francisco Martins Sarmento, no séc. XIX, viu-a no adro da igreja da povoação que aí estava como elemento decorativo. O povo, na sua sabedoria natural, achava que esta estela de cerca de 10 toneladas de granito era suficientemente bela para ser denominada formosa. O famoso arqueólogo não teve dúvidas de que era da cultura castreja e levou-a para o alto da citânia de Briteiros, onde vários investigadores da Europa vieram observá-la e interpretá-la1. Muitas hipóteses sobre a função desta pedra foram aventadas por muitos especialistas durante várias décadas até que, em meados do séc. XX, o coronel Mário Cardoso, seguindo da obra de Martins Sarmento continuou com as vastas escavações na citânia e veio a descobrir uma estrutura arquitectónica associada a estas pedras formosas.

Esta foi uma descoberta extraordinária pois desvendou a finalidade da estela tão ricamente trabalhada. Desde então, outras estações arqueológicas brindaram-nos com mais estruturas deste género, todas na região nordeste de Portugal e Galiza. Apesar de estarem inventariadas cerca de 30 estruturas, apenas cerca de meia dúzia estão completas, todas estas em Portugal, e as restantes são vestígios e fragmentos pertencentes a eventuais estruturas. E certamente outras estarão por desvendar.
A primeira interpretação dada foi a de forno crematório pois tinha uma parte dedicada ao fogo. Mais tarde, a ideia de termas para banhos ganhou importância fundamentada em vários aspectos: uma passagem de Estrabão refere que os povos ocidentais usavam um tipo de sauna; o vestígio de uma estrutura reaproveitada pelos romanos para construção de banhos; pelo facto de todas as estruturas terem na sua entrada e à esquerda um tanque de água corrente e fria; e pela existência de um espaço circular com cúpula associado a forno. Nos dias de hoje, os especialistas afirmam que a sua função não seria termas à maneira romana mas antes para banhos rituais com algum tipo de simbolismo.
Todas estas estruturas estão construídas num mesmo local relativamente ao centro da urbe e bastante afastada deste centro. A sua orientação é sudoeste-nordeste, portanto ao entrar segue-se a direcção Este no solstício de Verão. A sua localização na geografia da cidade fazia parte do cânone de construção: na citânia de Briteiros foi necessário a construção de uma conduta para transportar a água que provinha de uma fonte do lado oposto.
É composta por quatro divisões: um átrio de entrada aberto com um tanque de água no lado esquerdo; uma antecâmara que podia ser aberta ou com cobertura de colmo; a câmara principal cuja fachada é a pedra formosa; por último, e a única zona circular, o forno.




Continuaremos sem desvendar o segredo da exacta função desta estrutura arquitectónica. Pela sua localização no quadro da geografia sagrada da cidade; estando distante do núcleo populacional (às vezes no exterior da última linha de muralhas defensivas); pelo trabalho de arquitectura e escultura que implica a obra, consideramos que a sua função deveria de grande importância para estes povos.


Terminamos com a apresentação de alguns exemplos escultóricos em granito com os motivos principais que animaram o cânone estético desta cultura.
Autor: José Antunes
Bibliografia:
SILVA, Armando Coelho F. da, A Cultura Castreja no Noroeste de Portugal. Paços Ferreira, 1986
- Veja-se o relato de John Latouche: The Lost City of Citânia, 1876 ↩︎